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História do japão - Eras 9 e 10

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  • História do japão - Eras 9 e 10





    Era Azuchi-Momoyama

    O início da unificação japonesa.
    Oda Nobunaga e Toyotomi Hideyoshi lideraram processo de unificação com medidas de controlo a camponeses e terras.

    A partir de meados do século XVI, após o fim da Revolta de Onin, os principais senhores feudais, ou seja, os daimiôs, tentaram ampliar os seus poderes travando guerras sangrentas. Dentre esses daimiôs, destaca-se a figura de Oda Nobunaga.
    Nobunaga derrotou os daimiôs das redondezas e, chegando a kyoto, aniquilou o shogunato de Muromachi, em 1573. Em seguida, ele construiu um magnífico castelo em Azuchi (província de Shiga), próximo de Kyoto, e iniciou a obra de unificação do país, destruindo um a um seus inimigos. Entretanto, antes de concluir essa tarefa, Nobunaga foi traído por seu vassalo Akechi Mitsuhide e morreu no Templo Honnô-ji, em Kyoto.
    Quando a morte de Nobunaga foi comunicada a seu fiel vassalo Hashiba Hideyoshi (posteriormente Toyotomi Hideyoshi), com um golpe de mestre ele derrotou o traidor Mitsuhide, tornando-se o herdeiro da obra de unificação do país.

    Hideyoshi, então, construiu um gigantesco castelo em Osaka, o Osaka-jô, e, em 1590, alcançou a tão sonhada unificação do país, derrotando o clã Hôjô. Ele não deu início a um novo shogunato, mas tornou-se um kanpaku (plenipotenciário) para governar o país.
    O período de, aproximadamente, 30 anos nos quais esses dois grandes estrategistas unificaram o Japão é conhecido como Era Azuchi-Momoyama, cujos nomes foram tirados dos castelos construídos respectivamente por Oda Nobunaga e Toytomi Hideyoshi (Momoyama-jô, situado no bairro de Fushimi, em Kyoto).

    Oda Nobunaga (1534~1582)
    Nobunaga era um dos 19 filhos de Oda Nobuhide, senhor feudal de quatro aldeias de Owari (província de Nagóia). Aos 16 anos, casou-se com a filha de Saitô Dôsan, senhor feudal de Mino (actual província de Gifu), numa aliança de conveniência promovida pelo seu pai para evitar os conflitos em terras fronteiriças dos dois feudos. Mais tarde, o seu sogro, Saitô Dôsan, foi assassinado por seu próprio filho, Tatsuoki. Como represália, Nobunaga expulsou Tatsuoki do castelo.
    Com a destruição do shogunato Muromachi e a instalação no castelo de Azuchi, Nobunaga tomou uma série de medidas:
    • Aboliu o sistema de sekisho (posto de fiscalização das estradas), permitindo livre acesso de trânsito.
    • Tentou desenvolver a indústria e o comércio, isentando de impostos dos que mantinham actividades nas circunvizinhanças do castelo.
    • Protegeu o cristianismo.
    • Introduziu a arma de fogo nas suas batalhas, combatendo com furor os seus inimigos.
    • Acabou com a soberania da cidade comercial de Sakai.
    • Incendiou o Templo Enryaku-ji, porque os seus monges desobedeceram às suas ordens.
    • Combateu as rebeliões da região norte e nordeste.
    • Destruiu o poderoso clã Takeda, de Kai (actual província de Yamanashi).

    Traição de Akechi Mitsuhide (1528~1582)
    Existem algumas versões sobre o motivo pelo qual Mitsuhide traiu o seu senhor. Uma delas é a de que ele delatou o ataque que Nobunaga planejava a Takeda Katsuyori e, com medo de ser descoberto, atacou-o antes que fosse morto.
    Outra versão conta que Mitsuhide teria sido envergonhado na presença de muitos por Nobunaga, que o teria repreendido duramente por uma falha na recepção a Tokugawa Ieyasu, facto que teria motivado Mitsuhide a voltar-se contra o seu senhor.
    Entretanto, Mitsuhide deve ter sido motivado à traição pela imprudência do próprio Nobunaga, que se teria alojado no Templo Honnô-ji com pouquíssimo séquito, quando os seus vassalos fiéis estavam em terras distantes, combatendo forças revoltosas. Vendo uma óptima oportunidade para se tornar o novo governante do país, Mitsuhide terá atacado Nobunaga com a tropa recrutada para combater o clã Môri, da região de Chûgoku, a mando de seu senhor. Conseguindo encurralar Nobunaga, Mitsuhide terá incendiado o templo e levando-o ao suicídio.
    Há também os que dizem que a crença de Nobunaga de que a doutrina budista seria nociva para a modernização do país teria motivado a alma dos monges por ele assassinados a incorporar em Mitsuhide, levando-o a cometer um acto tão demente.

    Toyotomi Hideyoshi (1537~1598)
    Pouco se sabe sobre sua verdadeira origem e suspeita-se de que muitos dos episódios contados na literatura a seu respeito sejam falsos. Muitos podem ter sido criados pelo próprio Hideyoshi, cujo pai foi um simples soldado de Oda Nobuhide, mas tornou-se camponês ao voltar ferido à sua terra natal.
    Hideyoshi tornou-se empregado de Nobunaga, começando como guarda-calçados (zôri tori). Com sua astúcia e simpatia inata, foi conquistando a confiança de seu senhor, participando em várias batalhas e passando a comandar as tropas, vencendo muitos confrontos até chegar a ser senhor de um castelo, aos 37 anos.
    Hideyoshi foi informado da morte de Nobunaga na distante região de Chûgoku, onde estava em guerra contra o clã Môri. Usando toda a sua astúcia, fez um acordo de paz com o clã e voltou o mais depressa que pôde com sua tropa. Depois de derrubar Mitsuhide, Hideyoshi tornou-se sucessor de Nobunaga na tarefa de unificação do Japão.
    Para controlar melhor os camponeses e suas terras, Hideyoshi estabeleceu um padrão de medidas, unificando inclusive o tamanho da caixinha de madeira para medir o arroz (masu). Mandou medir todos os arrozais, verificar a qualidade do solo, registrar todas as informações e redistribuiu as terras, cobrando tributos conforme sua capacidade de produção (koku-daka).
    Com a medida de uma terra para um lavrador, no sistema de shôen (latifúndio), em que havia muitos “sócios” dividindo os lucros das colheitas, os poucos latifúndios que ainda sobreviviam desapareceram, ficando os camponeses sob o controle de um senhor feudal. Esta medida ficou conhecida como taikô kenchi.
    Hideyoshi ainda realizou o katana-gari, ou seja, confiscou e proibiu o porte de armas pelos camponeses e monges. Não satisfeito em controlar apenas o Japão, Hideyoshi tentou derrubar a dinastia Ming, da China, e por duas vezes enviou tropas para a Coreia, que ficava no meio do caminho para a China. No entanto, o povo coreano resistiu bravamente a esta invasão e deixou as tropas enviadas por Hideyoshi em desvantagem cada vez maior. Somando a isso ao falecimento de Hideyoshi, em 1598, os soldados japoneses retiraram-se da Coreia. Esse envio de tropas para o exterior desfalcou o cofre do país e constituiu-se em um dos motivos que levou à queda de Toyotomi.

    Nanban Bôeki
    Comércio com europeus, florescimento de novas culturas e construção de castelos suntuosos marcaram a época.
    Na época de Nobunaga e Hideyoshi, floresceram as culturas mais ousadas e luxuosas, criadas por influência das mentes guerreiras dos samurais – classe reinante da época – e também pela cultura ocidental introduzida no país por meio do comércio com portugueses, espanhóis e italianos, o chamado nanban bôeki, ou seja, comércio exterior com os bárbaros do sul, direcção em que vinham os navios mercantes. O termo refere-se também ao comércio realizado pelos navios japoneses com os países das ilhas do sul, como Luzon (uma das ilhas das Filipinas), Java (na Indonésia), entre outras. Durante essa era da história japonesa, o comércio foi mantido, principalmente, com os portugueses.
    Os europeus traziam ao Japão produtos como sedas chinesas, armas de fogo, pólvora, couro, especiarias e produtos de vidro, e compravam ouro, cobre, enxofre e principalmente prata, que passou a ser extraída em maior volume nesse período. O hábito de fumar também se difundiu e, no início do século XVII, o pé de tabaco passou a ser cultivado no Japão.
    Os costumes dos nativos da Europa dessa época podem ser observados em figuras desenhadas nos biombos chamados de nanban byôbu. Há desenhos de caravelas, treino de cavalos, aves, outros animais e diversos objectos comercializados no período.

    Momoyama bunka (Cultura Momoyama)
    As diversas manifestações culturais dessa era são conhecidas como Momoyama bunka. Trata-se de uma época em que a paz foi restabelecida, o comércio se intensificou e os novos daimiôs ascendentes e os comerciantes que enriqueceram gastaram a sua fortuna para ostentar o seu poder ou a sua riqueza. Foram construídos por diversos daimiôs muitos castelos com belos e imponentes tenshukaku, ou seja, torres que serviam de mirante.
    Tanto Oda Nobunaga (1534~1582) quanto Toyotomi Hideyoshi (1537~1598) construíram gigantescos e luxuosos castelos. Nobunaga construiu o Castelo Azuchi-jô, perto do Lago Biwa, na província de Shiga, entre 1576 e 1579; entretanto, a edificação foi destruída pelo fogo em 1582, durante a Revolta de Akechi Mitsuhide.
    Hideyoshi, por sua vez, iniciou a construção do Castelo Ôsaka-jô, em 1583, e levou três anos para concluí-lo. Também esse castelo foi destruído em 1615 pelo fogo, durante a guerra que provocaria o suicídio de Toyotomi Hideyori, herdeiro e filho único de Hideyoshi, e da sua concubina, Yodogimi (sobrinha de Nobunaga). Hideyoshi ainda construiu em Kyoto o Castelo Jurakudai (1587), que foi destruído posteriormente (1595), e o Castelo Fushimi-jô, também conhecido pelo nome de Momoyama-jô, em 1594, onde o guerreiro viveu os seus últimos anos de vida. Com a morte do pai, Hideyori mudou-se para o castelo de Osaka, ficando o castelo de Fushimi sob a guarda de Tokugawa Ieyasu.
    Todos esses castelos eram sumptuosos e enfeitados com ouro em todos os seus detalhes, com divisórias (fusuma) e biombos pintados com colorido refulgente. Das obras pintadas, destacam-se as de Kanô Eitoku (1543~1590) e Kanô Sanraku (1559~1635), da escola Kanô, que desenvolveu a arte em estilo Momoyama, combinando a técnica de suiboku-ga (sumiê) e de pintura tradicional japonesa (yamato-e). Uma das obras mais representativas de Kanô Eitoku é o biombo Kara-jishi byôbu, com a pintura de dois leões.
    O Castelo de Himeji, na cidade com o mesmo nome localizada na província de Hyogo, serviu como residência de Hideyoshi na época em que ele ainda se chamava Hashiba Hideyoshi. O Castelo de Himeji – cuja construção foi iniciada no século XIV e finalizada no século XVII – foi reformado e ampliado pelo senhor feudal da Era Edo Ikeda Terumasa, ficando pronto em 1609. A construção de Himeji, também conhecida como Shirasagi-jô, sobreviveu aos bombardeios da Segunda Guerra Mundial e, actualmente, é um dos castelos marcados como património nacional.

    Cha-no-yu e Sen-no-Rikyu (1522~1591)
    Enquanto muitos samurais e nobres ostentavam o luxo, Sen-no-Rikyu transformou o cha-no-yu (cerimónia do chá), praticado até então com os objectos requintados importados da China, em apreciação do chá dentro de ambiente de refinada simplicidade, utilizando apetrechos comuns feitos no país. O chá, que antes era preparado numa sala à parte e servido à visita numa outra sala, passou a ser preparado diante do visitante. Foi criado todo um cerimonial para apreciação do chá num ambiente simples, mas de extremo bom gosto.
    Sen-no-Rikyu foi o fundador da arte da cerimónia do chá da escola Senke e nasceu na cidade portuária de Sakai, em 1522. Seu antepassado foi Sen-ami, que serviu ao shogum Yoshimasa, oitavo da linhagem do clã Ashikaga. “Ami” era um título concedido aos sacerdotes com vasto conhecimento de diversas artes. Sen-ami mudou-se para a cidade de Sakai durante a Revolta de Onin.
    Rikyu nasceu numa família de comerciantes abastados e desde cedo se interessou pela cerimónia do chá. Fez amizade com Imai Sôkyu (1520~1593) e Tsuda Sôtatsu (1504~1566), dois grandes mestres do chá e também grandes comerciantes.
    Aos 49 anos, ele foi apresentado a Oda Nobunaga por Imai Sôkyu e a partir daí começou a sua ascensão social. Com grande sabedoria, ele conquistou importância cada vez maior para seu senhor, Nobunaga, e transformou a cerimónia do chá num evento imprescindível em muitos acontecimentos sociais, elevando, consequentemente, o status de seus mestres. Após a morte de Nobunaga, Rikyu passou a servir a Hideyoshi, conquistando também a sua simpatia.
    Nessa época, mesmo no campo de batalha, eram realizadas as cerimónias do chá. Assim, Sen-no-Rikyu acompanhou Hideyoshi em suas guerras contra Shimazu, em Kyushu, e no ataque ao castelo de Odawara, aproveitando para trocar conhecimentos com os comerciantes influentes da região e divulgar a cerimónia do chá.
    Após unificar e dominar o Japão, para fazer saber o seu poder, Hideyoshi realizou um grande cha-kai, reunião para apreciar o chá, em 1587, comandado por Sen-no-Rikyu, com apoio de outros dois grandes mestres do chá, Imai Sôkyu e Tsuda Sôgyu, filho de Sôtatsu. Foram montados cerca de 800 lugares para realizar a cerimónia do chá no pátio do Templo Tenman-gu, contribuindo muito para aumentar o número de apreciadores dessa arte.
    Rikyu tornou-se um homem muito influente. Tanto é que o senhor feudal cristão de Kyushu Ôtomo Sôrin escreveu numa das suas cartas: “os assuntos particulares de Hideyoshi devem ser tratados com Rikyu; e os oficiais, com Hidenaga, irmão mais novo de Hideyoshi”.
    Apesar de ter se tornado um homem de confiança de Hideyoshi, Rikyu atraiu sua ira em 1590 e foi levado a praticar o seppuku (suicídio) no ano seguinte.

    Batalha de Sekigahara
    Aliados de Toyotomi tentaram deter a ascensão de Tokugawa, mas não obtiveram êxito; mais tarde, ele daria início ao shogunato de Edo

    Preocupado com seu filho Hideyori (1593~1615), antes de morrer, Toyotomi Hideyoshi (1536~1598) instituiu o gotairô, um conselho superior formado pelos cinco senhores feudais mais poderosos (tairô): Tokugawa Ieyasu, Maeda Toshiie, Môri Terumoto, Ukita Hideie e Kobayakawa Takakage (tio de Môri Terumoto e enteado do grande guerreiro Uesugi Kenshin), que depois da morte de seu padrasto recebeu o nome de Uesugi Kagekatsu. O gotairô tinha como principal função fiscalizar os trabalhos do gobugyô, uma espécie de conselho executivo formado por cinco bugyô (cargo público abaixo do tairô), tais como Ishida Mitsunari, Asano Nagamasa, Maeda Gen’i, Mashita Nagamori e Natsuka Masaie.
    Dentre os conselheiros do gotairô, talvez o mais fiel à família Toyotomi tenha sido Maeda Toshiie (1538~1599), homem de confiança de Hideyoshi e seu amigo de longa data. Após a morte de Hideyoshi, em 1598, Maeda tentou manter a paz auxiliando Hideyori no castelo de Osaka, mas adoeceu e faleceu um ano após a morte do amigo.
    Tokugawa Ieyasu (1542~1616), filho primogénito do senhor feudal do castelo de Mikawa (actual província de Aichi), não possuía a frieza e a audácia de Oda Nobunaga, nem a esperteza e a argúcia de Toyotomi Hideyoshi, mas era um homem paciente e oportunista. Após a morte de Hideyoshi, ele aumentou seu poder de influência, conseguindo fazer com que muitos senhores feudais passassem a apoiá-lo.
    Preocupado com o poder de Ieyasu, o ferrenho defensor de Toytomi Hideyori, Ishida Mitsunari (1560~1600) tentou detê-lo, mas não conseguiu a adesão de muitos guerreiros para a causa. Protegido de Hideyoshi, Ishida era mais burocrata do que guerreiro, seguindo sua carreira valendo-se basicamente de sua inteligência, e não de grandes feitos em batalhas. Além disso, sempre pairaram suspeitas acerca da paternidade de Hideyori, já que seu pai, Hideyoshi, não teve filhos com sua esposa Nene, nem com suas inúmeras concubinas. Entretanto, já em idade avançada, ele teve dois filhos com a bela e genial Yodogimi, sobrinha de Oda Nobunaga. Hideyori foi o seu segundo filho; o primeiro, Tsurumatsu, faleceu ainda pequeno.
    Em Junho de 1600, Tokugawa Ieyasu entrou em conflito com Kobayakawa Takakage (Uesugi Kagekatsu), iniciando uma batalha com o suposto intuito de provocar Ishida Mitsunari e levá-lo a confronto. Em Julho, quando as tropas de Ieyasu avançaram até Shimotsuke-no-kuni (província de Tochigi), Mitsunari decidiu combater as forças de Ieyasu tendo a seu lado as tropas dos guerreiros e do senhor feudal cristão Konishi Yukinaga (1558~1600) e o monge Ankokuji Ekei (?~1600), ambos homens de confiança de Toyotomi Hideyoshi. A batalha adquiriu dimensões cada vez maiores, obrigando os senhores feudais a decidirem de que lado deveriam lutar: juntar-se às tropas lideradas por Ishida Mitsunari, que lutava em nome de Toyotomi Hideyori, ou apoiar Tokugawa Ieyasu, poderoso senhor feudal em ascensão.
    Kuroda Nagamasa (1568~1623), Katô Kiyomasa (1562~1611) e Fukushima Masanori (1561~1624), grandes guerreiros acolhidos por Toyotomi Hideyoshi e de sua esposa Nene, lutaram ao lado de Tokugawa Ieyasu, em parte convencidos pela própria Nene, a quem consideravam como mãe. Ela, por sua vez, aliou-se a Ieyasu talvez motivada pelo ressentimento contra a mãe de Hideyori, Yodogimi, a quem seu esposo dedicou grande afecto nos últimos anos de vida; ou ainda é possível que os longos anos de convivência com o grande estrategista e guerreiro tenham cultivado em Nene a habilidade de reconhecer um vencedor.
    O confronto final ocorreu na tarde do dia 15 de Setembro de 1600, em Sekigahara, actual província de Gifu, quando a tropa de Kobayakawa Hideaki (1582~1602), sobrinho de Nene, mudou de lado e atacou os soldados até então aliados. Confusas, as tropas comandadas por Mitsunari perderam o rumo e acabaram vencidas pelos inimigos, liderados por Tokugawa Ieyasu.
    Ishida Mitsunari foi preso e decapitado juntamente com Konishi Yukinaga e Ankokuji Ekei em Rokujô-gawara, Kyoto.

    Osaka – Fuyu-no-jin, Natsu-no-jin
    Em 1603, Tokugawa Ieyasu, vencedor da batalha de Sekigahara, foi agraciado com o título de generalíssimo (seii-taishôgun), dando início ao shogunato de Edo, actual Tóquio. A única ameaça, entretanto, era Toyotomi Hideyori e sua mãe, Yodogimi, que foram poupados por consideração a Toyotomi Hideyoshi, com o argumento de que a batalha tinha sido ideia de Ishida. Mãe e filho, mais a esposa prometida a Hideyori, Sen-hime, neta de Tokugawa Ieyasu e filha do segundo shogun, Tokugawa Hidetada, viviam no castelo de Osaka, cercado duplamente pelos fossos e muralhas de rochas.
    Em Novembro de 1614, Ieyasu decidiu destruir a família Toyotomi e ordenou aos senhores feudais aliados de todo Japão o ataque ao castelo de Osaka, começando a batalha denominada Osaka, Fuyu-no-jin, ou seja, a batalha de Inverno em Osaka. Porém, os aliados da família Toyotomi, como Sanada Yukimura (1567~1615) defenderam bravamente o castelo. Por fim, eles concordaram em terminar a guerra, com a condição de fechar o fosso externo do castelo. No entanto, Ieyasu mandou fechar o fosso interno também.
    Como se isso não bastasse, no ano seguinte, ele exigiu que Hideyori saísse do castelo, provocando um novo confronto, a chamado Osaka, Natsu-no-jin, ou seja, a batalha de Verão em Osaka. Sem a protecção dos fossos, as forças aliadas de Hideyori tiveram de sair do castelo e enfrentar as tropas de Ieyasu, numericamente bem superiores e melhor preparadas. Então, no dia 8 de Maio de 1615, o castelo de Osaka ardeu em chamas, envolvendo Hideyori e a sua mãe, que optaram pelo suicídio, encerrando assim a batalha de Verão.

    Ninjas e Tokugawa Ieyasu
    Os espiões dos tempos antigos, chamados de ninjas ou shinobi-no-mono, surgiram provavelmente no fim da Era Muromachi, quando se iniciaram as guerras entre diversos clãs. Todavia, pouco se sabe sobre os ninjas, já que todo espião que se preze vive e morre no anonimato. Porém, é sabido que Ieyasu fazia uso dos ninjas, tanto os do grupo Iga como de Kôga.
    O relacionamento de Ieyasu com o grupo Iga começou quando ele foi salvo pelos samurais de Iga, em 1582, quando voltava às pressas da cidade de Sakai para sua terra, Okazaki, após saber do atentado de Akechi Mitsuhide contra seu senhor, Oda Nobunaga. Assim, ao se instalar em Edo, Ieyasu empregou-os, juntamente com os ninjas do grupo Kôga, para espionar os senhores feudais, ou seja, os daimiôs, para poder controlá-los.

    As mulheres que viveram na era das guerras
    Algumas mulheres viveram seguindo sua própria vontade, sobrepuseram-se ao seu destino e fizeram a diferença na história.
    Com o objectivo de ajudar os seus maridos, as suas famílias, ou mesmo trabalhando em prol de suas próprias ambições, muitas mulheres agiram nos bastidores do cenário sangrento das intensas guerras, época na qual apenas os mais fortes sobreviviam. Aqui, serão destacadas algumas das mulheres que viveram seguindo a própria vontade, não se subjugando ao destino, mas sobrepondo-se a ele.
    A posição social da mulher está intrinsecamente ligada ao tipo de casamento e aos direitos aos bens da família. Nos tempos em que os noivos iam visitar a casa das noivas para manter relações matrimoniais, as mulheres também tinham direitos aos bens da família. Mas os conflitos militares e a instabilidade social passaram a envolver as famílias ligadas por laços de casamento, mudando a forma do matrimónio. O casamento tornou-se um importante meio de arrebanhar aliados. A mulher começou a morar na casa do marido, pois seria uma forma de mantê-la como refém, garantindo a aliança militar.

    Oichi-no-kata (1547~1583)
    Filha de Oda Nobuhide e irmã de Oda Nobunaga, Oichi nasceu como uma das 6 filhas e 11 filhos de Nobuhide. Oda, um pequeno clã da actual província de Aichi, dominou a região valendo-se do poder de Saitô Dôsan, sogro de Nobunaga.
    Oichi-no-kata, uma bela mulher de traços delicados, casou-se aos 20 anos com Asai Nagamasa, senhor do castelo de Otani, actual província de Shiga. Tratava-se de um casamento de conveniência, em que se esperava dela a manutenção de informações sobre todos os actos do seu marido. Em 1570, Oichi avisou o irmão Nobunaga sobre a traição do seu marido. Em vez de mandar uma carta a respeito de tal acto traiçoeiro, ela enviou um saquinho de feijão azuki com duas pontas amarradas. Ao recebê-lo, Nobunaga logo decifrou o alerta de que seria cercado e atacado em duas frentes. Antes que isso acontecesse, ele atacou o cunhado e destruiu-o. Oichi-no-kata e as suas três filhas foram salvas e passaram a viver com Nobunaga.
    Em 1582, com a morte de Nobunaga, Oichi-no-kata casou-se com Shibata Katsuie, vassalo da família Oda. Em 1583, Katsuie foi derrotado por Toyotomi Hideyoshi. As três filhas foram salvas, mas Oichi optou pelo suicídio junto com o marido, no castelo de Kita-no-shô, actual província de Fukui.

    Yodogimi (1567~1615)
    Filha primogénita de Oichi-no-kata, Yodogimi perdeu o pai, Asai Nagamasa, aos 4 anos e passou a viver na casa da família Oda. Aos 14 anos, ela perdeu a mãe e o padrasto, quando Toyotomi Hideyoshi atacou Shibata Katsuie. Ela e suas duas irmãs menores foram novamente salvas e começaram a viver sob a protecção de Hideyoshi. As suas irmãs casaram-se antes dela, respectivamente com Tokugawa Hidetada (1579~1632), segundo shogun da Era Edo, e Kyôgoku Takatsugi (1563~1609), senhor feudal, antigo aliado de seu pai, Asai Nagamasa.
    As três filhas de Oichi-no-kata herdaram a beleza da mãe, especialmente Yodogimi, dona de uma beleza vivaz e ímpar, foco da atenção de Hideyoshi, que acabou fazendo dela a sua concubina predilecta. Na época, ela contava com 20 anos e Hideyoshi 53 anos. O primeiro filho do casal morreu doente com 1 ano de idade, mas, em 1593, ela presenteou o poderoso senhor Hideyoshi com outro filho, Hideyori.
    Hideyoshi dedicou todo o seu amor a esse filho único, mas faleceu quando Hideyori tinha apenas 6 anos de idade, pedindo aos seus principais vassalos para cuidarem e protegerem o seu filho amado. Entretanto, Tokugawa Ieyasu não cumpriu a palavra dada a Hideyoshi, atacando Hideyori e derrotando-o na batalha de Sekigahara, provocando a morte de Yodogimi e de seu filho na Batalha de Verão de Osaka.
    Yodogimi podia ter escolhido a rendição e talvez viver modestamente com seu filho em algum feudo distante, mas ela preferiu a morte a viver sob a protecção do homem que havia usurpado o poder que deveria pertencer ao seu filho. Ela, que passou por várias vicissitudes da vida, sabia que Hideyori, uma ameaça constante ao clã Tokugawa, jamais seria poupado.

    Kita-no-mandokoro (1541~1624)
    Kita-no-mandokoro, esposa de Toyotomi Hideyoshi, nasceu como filha de um humilde samurai que servia o clã Oda. Casou-se com Hideyoshi em Agosto de 1561, época em que ele não passava de um humilde servo de Oda Nobunaga, chamava-se Kinoshita Tôkichirô; e ela, Nene. Ela sempre esteve presente na vida do marido, apesar de ele ter tido diversas concubinas. Após a morte do esposo, Kita aliou-se a Tokugawa Ieyasu, fundador do shogunato Tokugawa, que perdurou por 15 gerações, até 1867.
    Quando Hideyoshi recebeu o título de plenipotenciário, ou seja, kanpaku, grau máximo da nobreza, ela, Nene, também recebeu o título máximo da nobreza, chamando-se Kita-no-mandokoro.
    Após a morte de seu marido, ela tornou-se monja, seguindo o costume da época. Mais tarde, ela recebeu de Tokugawa Ieyasu um templo em Kyoto, o Kôdai-ji, onde viveu até os 83 anos.

    Hosokawa Tamako – Garasha Fujin (1563~1600)
    Filha de Akechi Mitsuhide, que levou à morte o seu senhor, Oda Nobunaga, Tamako era bela e também muito culta. Casou-se aos 16 anos com Hosokawa Tadaoki (1563~1645), também com 16 anos. O pai de Tadaoki, Hosokawa Yûsai (1534~1632) era um conhecido erudito versado na arte de compor poemas waka.
    Após quatro anos de vida de casada, com um filho e uma filha, ela vivia dias felizes ao lado do seu dedicado marido, quando o seu pai se rebelou contra Oda Nogunaga e foi levado a cometer o seppuku ou harakiri, dez dias após a rebelião. Nessa ocasião, os principais vassalos da família Hosokawa aconselharam Tadaoki a separar-se da esposa, ou fazer com que ela praticasse o suicídio, a fim de proteger o clã da desgraça maior. Porém, Tadaoki não deu ouvidos aos seus súbditos e protegeu-a, fazendo com que ela vivesse em reclusão num local afastado, dentro do seu feudo, na península de Tango, Kyoto. Após dois anos de reclusão, com a interferência de Toyotomi Hideyoshi, ela deixou a erma península de Tango e foi viver em Osaka.
    Tamako passou-se interessar pelo cristianismo, talvez por influência de sua serva, a cristã Maria Kiyohara. Logo após a proibição da prática do cristianismo, em 1587, Tamako tornou-se católica, recebendo o nome de batismo, Garasha (talvez do latim gratia).
    Durante a batalha de Sekigahara, Ishida Mitsunari tentou obrigá-la a viver no castelo de Osaka como refém, mas ela recusou-se, suicidando-se. Logo depois disso, alguns servos fiéis a ela atearam fogo na casa e também se suicidaram. Essa sua atitude extremada intimidou Mitsunari e levantou o moral da tropa de Tokugawa.
    Dizem que há algumas citações sobre a família Akechi na carta do padre português Luis Frois, conservada em Roma.

  • #2
    História do japão - Eras 9 e 10

    GRANDEEEEE Trabalho...
    Com que então os NINJAS eram "SHINOBI-NO-MONO" (isso explica muita coisa, sobretudo a nivel de jogos arcade nos tempos de ciclo e secundária). Gostava de um dia experimentar o "Shinobi no Stereo".


    Essa das mulheres estarem nas casas dos pais, está gira.

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    • #3
      História do japão - Eras 9 e 10





      Era Edo

      O início do isolamento japonês
      Tokugawa Ieyasu deu início a um governo que se estendeu por mais de 250 anos, controlando senhores feudais e samurais.

      O sistema feudal japonês foi sedimentado por Tokugawa Ieyasu, cujo clã teve o domínio político do Japão por mais de 250 anos. Entretanto, qual foi a estratégia utilizada por ele para controlar senhores feudais e samurais?

      Shogunato Tokugawa e suas estratégias de controlo.
      Para a manutenção do shogunato, era imprescindível a cobrança de tributos. Para tanto, era necessário rigor na vigilância dos senhores feudais. Assim, como primeiro passo, foi feita a classificação dos senhores feudais (samurais com feudos superiores a 10 mil koku* – medida para indicar a receita obtida pelos daimiôs em sacas de arroz) em três categorias: shinpan, fudai e tozama.
      Shinpan eram os daimiôs (senhores feudais) que tinham parentesco com o clã Tokugawa. Estes receberam terras nas redondezas de Edo, Osaka e Kyoto. Fudai eram os daimiôs que serviam o clã há muitas gerações, ou os aliados que se mantiveram fiéis a Tokugawa desde antes da vitória do clã na Batalha de Sekigahara. Já Tozama eram os daimiôs inimigos de Tokugawa até o evento de Sekigahara. Estes receberam terras em regiões ermas, cercadas de feudos dos fudai daimiôs.
      Em 1615, foi estabelecido o sistema de um castelo para um feudo. O shogunato Tokugawa reconhecia apenas um castelo como sede de cada daimiô, fazendo com que os demais fossem desmontados, para reduzir sua capacidade de defesa.
      Também neste ano, foi outorgada a lei para controlar os daimiôs denominada Buke Shohatto. Anunciada pelo primeiro shogum, Tokugawa Ieyasu, no Castelo de Fushimi, a lei era composta por regras de comportamento para os daimiôs, com restrições quanto: reforma de castelos; proibição de construção de novos castelos; pedidos de permissão para casamentos; e sistema de sankin kôtai, ou seja, a obrigatoriedade de os daimiôs morar um ano em Edo e outro no seu feudo, alternadamente, com suas respectivas esposas e herdeiros residindo em Edo.
      Até o terceiro shogum, Tokugawa Iemitsu, 120 daimiôs tiveram seus feudos extintos por infracções à lei de Buke Shohatto. Quando isso ocorria, todos os seus súbditos perdiam o emprego e tornavam-se rônin, ou seja, samurais sem senhor a quem servir. Dessa forma, eles procuravam empregos em outros feudos; os mais estudados tornavam-se médicos, professores, ou yôjinbô (guarda, segurança) de casas comerciais. Eles podiam ainda tornar-se agricultores ou comerciantes.
      A acumulação de bens por parte dos daimiôs era controlada com as contribuições obrigatórias nas reformas do Castelo de Edo, obras de canalização, construção de vias públicas e pontes.
      Os súbditos directos do shogum eram subdivididos em dois grupos: os hatamoto e gokenin. Os hatamoto eram cerca de 5 mil samurais de elite, súbditos que tinham permissão para estar na presença do shogum. Os gokenin somavam em torno de 17 mil samurais, que não tinham permissão de estar na presença do shogum.
      O sistema social estabelecido foi o de shi-nô-kô-shô, que determinava a divisão da população em classes de samurais, agricultores, artesãos e comerciantes, sendo todas as funções de carácter hereditário. O casamento de pessoas de classes diferentes era proibido.

      Ôoka Tadasuke (1677~1751) – o samurai mais bem-sucedido
      Nascido como filho de um hatamoto, em Edo (actual Tóquio), Ôoka Tadasuke foi o único da sua classe a alcançar o posto de daimiô. Trabalhou como juiz na sua terra e julgou com imparcialidade um caso com envolvimento do clã Tokugawa, impingindo sentença desfavorável ao clã, sem se deixar influenciar por seu poder.
      Quando Tokugawa Yoshimune se tornou o oitavo shogum de Edo, lembrou-se do juiz incorruptível e escolheu-o como magistrado da cidade Edo, em 1717. O cargo de magistrado de Edo (Edo bugyô) era de suma importância e englobava os poderes legislativo, executivo e judiciário.
      Durante os 19 anos em que Tadasuke foi magistrado, ele proibiu a prática de tortura, criou medidas para evitar acusações falsas e julgou criminosos com sabedoria e misericórdia. Os seus casos judiciais estão descritos no livro intitulado Ôoka seidan. Tadasuke ainda criou, juntamente com o shogum Yoshimune, o grupo de bombeiros e o sistema de prevenção de incêndios; tentou reflectir a opinião do povo na política, com a criação da caixa de opiniões do povo; construiu um hospital em Koichikawa, atribuindo-o aos pobres; e contribuiu ainda para autorizar a introdução de livros holandeses, promovendo o desenvolvimento da ciência denominada de rangaku, ou estudos holandeses.

      Proibição do cristianismo e encerramento dos portos
      Presença de estrangeiros no arquipélago, propagação do cristianismo e boatos sobre colonização foram ameaças ao shogunato Tokugawa
      Tokugawa Ieyasu (1542~1616), a exemplo de Toyotomi Hideyoshi (1536~1598), proibiu o culto ao cristianismo, mas, ciente das riquezas provenientes do comércio exterior, sua fiscalização era branda e bastante receptiva à vinda dos navios portugueses e espanhóis. Posteriormente, os navios holandeses e ingleses também passaram a frequentar os portos japoneses. Aos navios mercantes japoneses pertencentes a senhores feudais e grandes comerciantes, foi concedido o alvará com o selo do clã Tokugawa, denominado shuin-jo, fomentando o comércio exterior com as ilhas do Sudeste Asiático, onde foram criadas algumas cidades japonesas.
      Com a intensificação do comércio com Portugal e Espanha, o número dos que se converteram ao cristianismo também aumentou, facto que levou sacerdotes shintoístas e monges budistas a forçarem a proibição do cristianismo. Além de senhores feudais, alguns samurais e servos subordinados directamente ao clã Tokugawa se converteram ao cristianismo. Por outro lado, os ingleses e os holandeses que chegaram ao Oriente depois de portugueses e espanhóis, por volta de 1601, para recuperar o atraso, tentaram atrapalhá-los, passando a espalhar o boato de que lusos e hispanos nutriam a ambição de colonizar o território japonês. Despontaram, ainda, alguns senhores feudais que enriqueceram com o comércio e adquiriram mais poder. Diante de tal panorama, o shogunato Tokugawa sentiu-se ameaçado.
      Dessa forma, Tokugawa Ieyasu proibiu a prática do cristianismo com maior rigor, destruindo igrejas e expulsando os padres do Japão. O segundo shogum, Hidetada (1579~1632), limitou o comércio com os europeus apenas à região de Hirado e Nagasaki. O terceiro shogum, Iemitsu (1604~1651), proibiu a entrada dos portugueses, que teriam rompido com o arquipélago de qualquer maneira, em virtude da actividade pirata holandesa. Os ingleses fecharam a casa de comércio de Hirado e retiraram-se do Japão em 1623, encontrando outros pontos comerciais mais lucrativos. Os espanhóis também abandonaram o comércio com o Japão, por não vislumbrarem tanta vantagem, permanecendo apenas os holandeses na terra do sol nascente.
      Em 1630, foi proibida a importação de livros chineses e europeus, a navegação dos que não fossem goshuin-sen (navio mercante autorizado pelo shogum), a saída dos japoneses ao exterior, a volta dos que moraram por mais de cinco anos no exterior e o aportamento dos navios estrangeiros. Foi construído ainda um aterro, ou seja, uma ilha artificial em Nagasaki chamada Dejima (1634), restringindo a actividade comercial e a permanência dos holandeses apenas a essa ilha.
      A perseguição de Tokugawa aos cristãos incluía o oferecimento de cem moedas de prata para quem denunciasse o esconderijo de padres, culminando com o aprisionamento, a tortura e a morte de cristãos, que, eram identificados quando titubeavam ou se recusavam a pisar sobre quadros de madeira ou de bronze com imagens de Cristo ou da Virgem Maria (fumi-ê).

      Revolta de Shimabara
      A Revolta de Shimabara (1637~1638) foi a última turbulência enfrentada pelo shogunato de Edo antes da estabilização do seu sistema do seu governo.
      Existiam muitos cristãos na região de Shimabara e Amakusa (norte da Ilha de Kyushu), por ela ter pertencido a Harunobu Arima e Konishi Yukinaga, senhores feudais cristãos, antes da Batalha de Sekigahara. Entretanto, os novos daimiôs da região, Matsukura Shigemasa e Terazawa Katataka, perseguiram os cristãos e aplicaram-lhes severas punições, como a morte na cratera de vulcões, ou ainda o envolvimento de seus corpos numa capa feita com palha de arroz, sobre a qual ateavam fogo. Tal morte era chamada de mino odori, ou seja, dança da capa de palha, e causava extremo divertimento aos senhores feudais, que gostavam de ver os condenados debaterem-se envoltos em chamas.
      Matsukura e Terazawa cobravam altos tributos dos camponeses, mesmo sabendo que a região estava sendo castigada pela seca e, consequentemente, a colheita fosse escassa. A fome fazia muitas vítimas, mas, mesmo assim, os senhores feudais nada fizeram para ajudar o povo. Foi nesse cenário que se espalhou o boato de que um filho de Deus surgiria para salvar as pessoas. Esse salvador foi identificado como Masuda Shirô Tokisada, que, por ter nascido em Amakusa, ficou conhecido pelo cognome de Amakusa Shirô.
      Amakusa Shirô liderou os camponeses rebelados de Shimabara e Amakusa que lutaram contra os cruéis senhores feudais e as tropas enviadas pelo shogunato Tokugawa. A rebelião de 37 mil pessoas só foi contida quando o governo de Edo enviou uma tropa de 120 mil samurais comandada por Matsudaira Nobutsuna, homem de confiança do shogum Iemitsu.
      Após conter a rebelião, o governo puniu com a pena de morte os senhores feudais de Shimabara e Amakusa. A região tornou-se praticamente desabitada. Dessa forma, o governo forçou a migração de muitos camponeses para este local e adoptou medidas políticas que beneficiavam os menos abastados, como a redução de tributos. Cinquenta anos após o conflito, a região transformou-se em uma das zonas rurais mais ricas e modernas do Japão.

      Amakusa Shirô (1621~1638)
      Um padre expulso de Amakusa havia feito a profecia de que um jovem de 16 anos salvaria o povo quando o céu queimasse as nuvens de leste a oeste, o solo desabrochasse flores fora da época, a terra tremesse e o povo e a natureza perecessem.
      Mais de duas décadas após a profecia, o céu tingiu-se de vermelho, as flores de cerejeiras desabrocharam – apesar de ser Outono – e as doenças da época fizeram muitas vítimas. O povo passou a comentar que a profecia estava prestes a ser concretizada. Nessa época, morava em Amakusa um menino de 16 anos, filho de Masuda Jinbê, que havia servido a Konishi Yukinaga. Era um menino muito esperto, de traço delicado e carismático, que logo se tornou muito respeitado na região. Sabia falar latim e era versado na doutrina cristã, assim como na filosofia confucionista.
      Uma vez escolhido como líder do movimento, ele lutou bravamente à frente da força revoltosa, agiu com sabedoria, incentivou o grupo com a fé cristã e fez com que os camponeses lutassem sem temer a morte. Com a derrota da força revoltosa, ele foi capturado e decapitado.

      Fome, revoltas e novas políticas
      Aumento de ronin, ordem social conservadora e instabilidade emocional fizeram o shogunato mudar a directriz do governo

      A administração política do Japão foi desenvolvida com base em um gigantesco poderio militar do momento em que Tokugawa Ieyasu (1542~1616) implantou seu shogunato e se estabeleceu na cidade de Edo (actual Tóquio), até a actuação do terceiro shogum, Tokugawa Iemitsu (1604~1651). Por causa de um rigoroso controlo e vigilância, muitos senhores feudais tiveram suas terras confiscadas e muitos clãs foram extintos, aumentando, dessa forma, o número de samurais errantes (ronin), que ficaram sem um senhor a quem servir. Em 1651, a insatisfação de muitos desses samurais, que chegaram ao número de 400 mil, deu início a um plano para a destituição do shogunato.
      Em Janeiro de 1657, mais um acontecimento contribuiu para o descontentamento geral. O Furisode Kaji (literalmente, incêndio de furisode) destruiu grande parte da cidade de Edo e foi provocado por um furisode, ou seja, um quimono luxuoso de donzelas, que estava a ser queimado num templo, porque as suas três últimas donas terem falecido em sequência. A roupa foi carregada pelo vento ainda em chamas, causando o incêndio.
      O aumento do número de ronin, somado à insatisfação com uma ordem social conservadora, que não permitia a promoção ou a ascensão das pessoas conforme sua capacidade, bem como a instabilidade emocional provocada pelo grande incêndio fizeram com que o shogunato Tokugawa mudasse a directriz do governo – norteada pela força militar –, implantando uma política baseada na doutrina do filósofo chinês Confúcio. Essa alteração foi responsável pela época áurea do shogunato Tokugawa e sustentou a manutenção do quarto ao sétimo shogum de Edo, embora a política adoptada pendesse para o idealismo, tornando-se a causa dos conflitos sociais posteriores.

      “Inu shogum” (shogum cão) – o quinto shogum: Tokugawa Tsunayoshi (1646~1709)
      Inicialmente, Tsunayoshi foi um bom governante, mas, depois de outorgar, em 1685, a primeira “lei de misericórdia a todos os seres viventes”, seguida de mais 60 determinações semelhantes durante os seus 24 anos de poder, perdeu o prestígio e ganhou o apelido de “inu shogum”, ou seja, shogum cão.
      Tudo começou com a morte do seu herdeiro, em 1683. Depois disso, o shogum não conseguiu mais ter outros filhos homens. Um famoso monge, entretanto, disse que o facto era devido ao shogum ter morto animais na sua vida anterior e que, se ele desejava ter um herdeiro, deveria dedicar mais amor aos animais. Assim, como Tsunayoshi havia nascido no ano do cão, de acordo com o horóscopo chinês, passou a proteger, principalmente, esses animais.
      Para proteger cães abandonados, Tsunayoshi chegou a criar 80 mil desses animais num terreno imenso, alimentando-os com arroz, quando o povo morria de fome. Uma de suas leis determinava que quem matasse um cão seria exilado nas ilhas longínquas. O “inu shogum” desejou, no seu leito de morte, que as leis de protecção aos animais perdurassem por mais cem anos, mas o seu sucessor, o sexto shogum, suspendeu as leis antes mesmo de terminar o funeral de Tsunayoshi.
      O sexto shogum, Tokugawa Ienobu (1663~1712) restabeleceu a ordem empregando o filósofo confucionista Arai Hakuseki. O seu filho Ietsugu (1709~1716) tornou-se o sétimo shogum aos 4 anos, assessorado por Arai Hakuseki, mas morreu aos 8 anos. O oitavo shogum foi Tokugawa Yoshimune, do clã de Kii-Tokugawa.

      A vingança dos Akô-rôshi
      Actualmente, todos os anos no mês de Dezembro, tornou-se quase que obrigatória a encenação da história dos Akô-rôshi na televisão e em vários palcos de teatro.
      No dia 15 de Dezembro de 1702, os 47 conjurados, ex-vassalos do extinto feudo Akô atacaram a residência de Kira Kozukenosuke Yoshinaka e, após duas horas de batalha, conseguiram a cabeça de Kira, retiraram-se do local e dirigiram-se até o túmulo de seu antigo senhor feudal, Asano Takuminokami, para presenteá-lo com a cabeça do inimigo que o fez cair em desgraça. O shogunato vacilou ao punir os 47 conjurados, mas, no final, todos foram sentenciados com a pena de haraquiri.
      Tudo começou em Março de 1701, quando Asano Takuminokami atacou repentinamente Kira, no corredor do Castelo de Edo, onde era proibido desembainhar a espada. Não há nenhum registro do motivo que levou Asano a cometer um acto tão demente, mas tudo indica que o incidente foi provocado por Kira, que sempre dirigia palavras mordazes aos seus “amigos”. Kira não deve ter poupado palavras para criticá-lo pelas supostas falhas cometidas ao receber o mensageiro do imperador. Asano Takuminokami foi condenado a praticar o haraquiri, e seu feudo foi extinto.
      Mesmo a doutrina confucionista da China pregava a vingança dos vassalos e familiares como uma obrigação. O shogunato Tokugawa emitia a licença de vingança, e os senhores feudais costumavam pagar um custo de vida aos familiares dos seus vassalos até conseguirem vingar a morte dos seus entes queridos. Após a vindicação dos conjurados de Akô, esse hábito estendeu-se até a classe dos plebeus. Os que conseguiam seu objectivo, tornavam-se heróis aos olhos do povo.

      O oitavo shogum, Tokugawa Yoshimune (1684~1751)
      Yoshimune restaurou e desenvolveu o shogunato. As suas medidas ficaram conhecidas como a Reforma de Kyôho, em virtude de o shogum ter assumido o poder e iniciado a reforma no primeiro ano da era Kyôho, ou seja, em 1716. Yoshimune seguia a política de Tokugawa Ieyasu e recomendou uma vida austera a camponeses e civis, além do incentivo aos treinos de artes marciais, para elevar o moral dos samurais.
      O oitavo shogum explorou arrozais e valeu-se do poder financeiro dos comerciantes para aumentar a taxa da carga tributária. Ele criou ainda um sistema de promoção aos funcionários do baixo escalão conforme a sua capacidade. No entanto, a carga tributária era pesada, e o campo foi assolado sucessivas vezes por um clima traiçoeiro, provocando muitos motins de camponeses. Muitos feudos tomaram medidas para a sobrevivência, tais como diminuir o pagamento de seus vassalos, monopolizar a venda de seus produtos e emitir moedas de circulação apenas interna, mas os samurais tiveram de enfrentar uma vida difícil. Muitos feudos contraíram dívidas vultosas a grandes comerciantes das metrópoles.


      Os grandes impérios do Ocidente invadem o Oriente
      Colonização europeia na Ásia oriental tornou ainda mais poderosas as potências que já dominavam o restante do mundo; frágil, o Japão foi obrigado a ceder à pressão.

      O mundo evoluía para a modernidade, enquanto o Japão gozava de uma relativa paz dentro da redoma criada com o encerramento dos portos às nações estrangeiras. Tal atitude foi a base para a criação de uma cultura própria e peculiar.
      Grande parte dos países das Américas havia conquistado a independência, inclusive o Brasil, no ano de 1822. Entretanto, a Revolução Industrial, iniciada em meados do século XVIII, na Inglaterra, impulsionou a busca europeia por novas colónias. Assim, a Inglaterra, por exemplo, invadiu e colonizou a Índia, a Birmânia (actual Mianmá), Hong Kong (cedida pela China após a Guerra do Ópio) e a Península Malaia; a França colonizou o Vietnam, o Camboja e o Laos; a Holanda, as Ilhas da Indonésia; Portugal, Goa, Ilhas Molucas, Macau, Timor-leste e outros territórios; enquanto a Espanha conquistou as Filipinas.
      Estas notícias provavelmente chegaram ao shogunato Tokugawa pelos holandeses – que mantinham relações comerciais com o Japão – deixando-o receoso.

      Navios americanos (kurobune) nos mares do Japão
      Quando a esquadra americana composta por quatro navios de guerra comandados pelo almirante Matthew Calbraith Perry (1794~1858) aportou em Uraga (província de Kanagawa), apontou seus canhões para as terras japonesas e entregou uma carta do presidente dos Estados Unidos com o objectivo de assinar um tratado de comércio com o arquipélago, o governo Tokugawa ficou alarmado, mas conseguiu adiar sua resposta por um ano.
      Assim, em 1854, Perry ancorou no Golfo de Edo para cobrar uma resposta japonesa. O shogunato, enfraquecido e desgastado ao longo de 260 anos de comando, não pôde recusar a imposição americana e acabou assinando o Tratado de Kanagawa, em 31 de Março de 1854, o qual permitiu aos Estados Unidos a abertura de portos em Shimoda e Hakodate, o fornecimento de combustíveis e produtos alimentícios aos navios americanos e a instalação do consulado americano na terra do sol nascente.
      O Tratado de Comércio e Navegação foi assinado em 1858 e deu aos americanos poderes para aportarem seus navios em Kanagawa, Nagasaki, Niigata e Hyogo. Uma vez cedida à pressão estrangeira, o shogunato Tokugawa teve que assinar tratados semelhantes com Inglaterra, Rússia e Holanda. Dessa forma, desmoronou a política de isolamento das nações estrangeiras, e outros factores encarregaram-se de corroer o sistema político que sustentava o poder do shogunato japonês.

      Evasão rural
      Por volta do século XVIII, a circulação cada vez maior de moedas influenciou muito não apenas a economia urbana, mas também a rural. Em vez de plantarem apenas para seu próprio consumo, a moeda permitiu aos agricultores o comércio de suas colheitas, com a compra de novos e melhores equipamentos e sementes de produtos como algodão e colza (para extracção de óleo). Essa modernização provocou desníveis sociais, porque os agricultores conseguiram enriquecer com a comercialização de seus produtos e compraram terrenos de pessoas menos abastadas, ignorando a proibição imposta pela lei vigente. Muitos dos que perderam suas terras abandonaram o campo e foram para as grandes cidades, causando fissuras nas bases da então sociedade conservadora.

      Expansão das actividades de manufactura
      A actividade têxtil também foi adquirindo novo fôlego, com o desenvolvimento do brocado nishijin na região de Kyoto e Kiryû (província de Gunma) e do tecido de algodão nas imediações de Osaka e Owari. Os comerciantes de tecidos começaram a procurar camponeses para o trabalho na actividade têxtil, alugando teares, fornecendo a linha e adquirindo tecidos a preços irrisórios.
      Comerciantes ou proprietários de terras mais abastados, ou mesmo alguns senhores feudais, passaram a reunir camponeses num local montado com todos os equipamentos necessários para a fabricação de tecidos para a realização do trabalho em equipa, com subdivisão de tarefas. Surgiam, assim, as primeiras “fábricas”.
      A vida dos camponeses não melhorou, apesar de todas essas actividades económicas. Houve, inclusive, a piora das condições de sobrevivência, pois os camponeses começaram a sofrer a influência da flutuação dos preços dos produtos agrícolas, além dos tributos, que ficaram mais onerosos.

      A desintegração do sistema de shogunato Tokugawa
      Em fins do século XVIII, na tentativa de recuperar a estabilidade política do shogunato, o rôchû Matsudaira Sadanobu implementou a Reforma de Kansei (1787~1793), que se constituía em: construção de armazéns para o arroz, a fim de ter reserva, em caso de carência de víveres; limitação de lavoura de produtos comerciáveis; incentivo de estudos e práticas de artes marciais dos samurais; unificação do ensino, proibindo os estudos que não fossem de filosofia confucionista; amnistia de uma parte das dívidas contraídas dos comerciantes pelos hatamoto, dando a estes uma vida mais austera.
      Com o abrandamento da política do shogunato causado pelo afastamento de Sadanobu, no início do século XIX, os comerciantes adquiriram cada vez mais poder económico; em contrapartida, o número de samurais empobrecidos aumentou. Muitos plebeus compraram o título de samurai, fazendo com que seus filhos se tornassem herdeiros de famílias de samurais.
      As insatisfações contra a sociedade desestruturada e a demonstração de fraqueza do shogunato Tokugawa perante as nações estrangeiras que forçaram a abertura dos portos causaram o surgimento de ideais revolucionários entre os jovens samurais, culminando com a restauração do poder imperial, em 1868.


      As três fases culturais
      Período histórico inspirou o surgimento de grandes expoentes de várias áreas da cultura japonesa.

      A Era Edo teve três fases distintas, sob o ponto de vista cultural. A primeira delas, denominada Cultura Keichô-Kan’ei, abrangeu a primeira metade do século XVII; a segunda fase, chamada de Cultura Genroku, foi de meados do século XVII até o início do século XVIII; a terceira fase, denominada Cultura Kasei, começou em fins do século XVIII e terminou no início do século XIX.
      A Cultura Keichô-Kan’ei é representada por obras sumptuosas e luxuosas, como segmento da Era Azuchi-Momoyama, observando-se também a influência da cultura ocidental. A cultura dessa fase foi sustentada por samurais e nobres.
      Como obra representativa dessa época, há o Templo Toshogu, construído em homenagem a Tokugawa Ieyasu, na província de Tochigi, cidade de Nikko. Ao falecer, Ieyasu foi enterrado primeiro no Monte Kunôzan, na província de Shizuoka, em 1616, porém, no ano seguinte, sob conselho do monge Tenkai (1536~1643), seu filho e segundo shogum, Hidetada, transferiu o corpo de Ieyasu para Nikko. O templo foi reformado e ampliado pelo terceiro shogum, Iemitsu, entre 1634 e 1636. Fazendo contraste com o sumptuoso Templo Toshogu, encontra-se em Kyoto a vila imperial Katsura-Rikyu, construída entre 1620 e 1624, despojada de luxo, porém denotando refinamento ímpar.
      A Cultura Genroku floresceu, principalmente, em Osaka, sustentada por grandes comerciantes e samurais. Nas obras desse período, observam-se a ideologia pragmática e realista. Os artistas representativos dessa época são: no campo da pintura, Ogata Kôrin (1658~1716) e Hishikawa Moronobu (1618~1694), conhecido como criador das xilogravuras ukiyoye; e, no campo da literatura, Matsuo Basho (1644~1694), que sublimou o haicai; Ihara Saikaku (1642~1693), que descreveu a vida do povo com vivacidade; e Chikamatsu Monzaemon (1653~1724), que compôs peças para Jôruri e para teatro Kabuki.
      A Cultura Kasei, última da Era Edo, foi criada por samurais e pelo povo de Edo, que adquiriu estabilidade económica e política. Nas obras dessa época, transparecem o gosto pelo prazer mundano, reflectindo a política degenerada e corrupta. Destacaram-se nessa época muitos pintores de ukiyoye, tais como: Utamaro (1753~1806) e Sharaku (?~fins do século XVIII) – que pintaram muitos artistas do teatro Kabuki e mulheres consideradas bonitas na época –, Hokusai (1760~1849) e Hiroshige (1797~1858), que pintaram paisagens. Na literatura, tivemos Jippen Shaikku (1765~1831), autor da comédia Tôkaidô Hizakurige, o romancista Takizawa Bakin, e os poetas de haicai Yosa Buson (1716~1783) e Kobayashi Issa (1763~1827).

      Ukiyoye
      Um dos factores que impulsionou o surgimento da japonologia – estudos sobre a cultura japonesa –, na Europa, durante o século XIX, foi a descoberta do ukiyoye pelos europeus. A influência do ukiyoye é observada, por exemplo, nas obras do pintor Vincent van Gogh (1853~1890).
      Ukiyoye é a denominação da pintura que retrata a vida do povo da época. Eram quadros pintados com o próprio punho, bastante caros, adquiridos apenas por senhores feudais ou grandes comerciantes. Com o desenvolvimento de técnica de xilogravuras, o ukiyoye popularizou-se. No início, era empregado como ilustração de romances populares e eram figuras monocromáticas, que se tornaram coloridas com o tempo. O ukiyoye era idealizado primeiro pelo editor; depois, o pintor desenhava conforme o pedido; a seguir, ele era esculpido nas pranchas de madeira, conforme as cores; e, por último, passado para o impressor, que tirava as cópias. À medida que aumentava o número de publicações e a técnica de impressão também avançava, o ukiyoye tornava-se acessível ao povo também, que o adquiria para apreciá-lo, ou para levá-lo como lembrança de viagem.
      Sharaku, que criou um estilo próprio de homens caricaturados, conseguindo transmitir os sentimentos humanos, não foi muito apreciado na época. As suas obras passaram a ser valorizadas apenas na Era Meiji, quando Ernest Francisco Fenollosa (1853~1908), que apresentou as obras de arte japonesa nos Estados Unidos, reconheceu o seu valor artístico.

      Literatura – yomihon
      Os romances lidos pelo povo na Era Edo eram conhecidos pelo nome de yomihon e existiam em diversos géneros, para todos os gostos: kana-zôshi escrito em hiragana (fonogramas); ukiyo-zôshi, sobre amores e vida do povo; share-bon, que retrata a vida dos prostíbulos; kokkei-bon, romance que aborda o lado cómico do povo; ninjô-bon, histórias de amor; kusa-zôshi, contos ilustrados para o público infantil e o feminino; e kibyôshi, romance ilustrado para adultos. Todos esses livros eram muito lidos pelo povo, mas, nessa época, em vez de comprá-los, o povo alugava-os nas livrarias de aluguer.
      O shogunato interferia até mesmo nos conteúdos desses romances, proibindo a publicação daqueles que poderiam atentar contra os bons costumes da época, ou aqueles que continham teor de crítica ao sistema vigente, punindo os editores e autores que, no início, eram samurais de baixo escalão, pois ainda não conseguiam sobreviver somente como escritores.

      Kokugaku (Estudos Clássicos Japoneses) e Yôgaku (Estudos das Ciências Ocidentais)
      Após o oitavo shogum, Yoshimune, ter autorizado a importação das literaturas ocidentais traduzidas para o chinês, o número daqueles que estudavam as ciências do Ocidente aumentou.
      O médico alemão Siebold (1796~1866), que chegou ao Japão no ano de 1823, para trabalhar como médico da Casa Comercial Holandesa (Horanda-Shôkan), fundou, na periferia da cidade de Nagasaki, no ano seguinte à sua chegada, a escola Narutaki-juku, formando vários estudiosos de Yôgaku.
      Nessa época, surgiu também um movimento para pesquisar os pensamentos do povo japonês, remetendo aos tempos primordiais, que antecederam a introdução do budismo e do confucionismo. Esse movimento recebeu o nome de Kokugaku. Entre os estudiosos de Kokugaku, destacaram-se Kamo-no-Mabuchi (1697~1769) e Motoori Norinaga (1730~1801). O Kokugaku difundiu-se mesmo entre os camponeses e o povo, encontrando seu seguidor na figura de Hirata Atsutane (1776~1843), que remeteu a sua linha de pensamento até o shintoísmo – filosofia essa que foi adoptada pelos imperialistas em fins de shogunato Tokugawa.

      Popularização de algumas formas de arte
      Durante o período, algumas manifestações culturais difundiram-se socialmente e consolidaram-se, sendo preservadas no Japão até os dias actuais.

      Haiku – o poema de 17 sílabas
      Isolado do restante do mundo, o Japão consolidou e popularizou muitas formas de arte peculiares durante a Era Edo. Algumas delas são praticadas até hoje com mestria e requinte. Uma delas é o haiku, um poema composto por versos de 5, 7 e 5 sílabas (totalizando 17), cujo assunto é um tema sazonal.
      A denominação haiku foi difundida por Masaoka Shiki (1867~1902), mas pode-se referir também, no seu sentido lato, à primeira estrofe do poema do haikai, que se popularizou na Era Edo. O haiku e o poema tanka, de 31 sílabas, constituíram as duas principais correntes literárias genuinamente japonesas.
      O povo da Era Edo compunha esse tipo de poema para explorar o lado cómico da vida. Quem elevou o nível da arte foi Matsuo Bashô (1644~1694). Um dos seus poemas mais conhecidos representa o seu estilo literário simplista, porém contém toda a visão oriental de wabi (serenidade plena) e sabi (refinamento ou brio envolto por camada de refinamento): Furuike ya, Kawazu Tobikomu, Mizu no Oto (No velho açude, o pulo do sapo que quebra o silêncio).
      Além de Bashô, o haikai, precursor do haiku, teve outros grandes poetas que se destacaram na Era Edo, como: Yosa Buson (1716~1783) e Kobayashi Issa (1763~1827).

      Senryû – Uma variedade de haiku como tema humorístico
      O senryû é um poema de 17 sílabas em linguagem coloquial, de conteúdo cómico, irónico ou satírico, que teve muita evidência a partir de meados da Era Edo. Em fins desse período, surgiu uma facção de tendência vulgar que recebeu o nome de kyôka.
      Esse tipo de poema antes era chamado de maeku (primeira estrofe) e fazia parte do haikai. Era uma espécie de jogo em que se acrescentava o maeku de 17 sílabas para a segunda estrofe, de 14 sílabas, dada como tema.

      Matsuo Bashô (1644~1694)
      Nascido na cidade de Ueno, em Iga (actual província de Mie), a famosa terra dos ninjas, quando jovem, Bashô serviu ao filho do chefe dos samurais do feudo de Ueno, Yoshitada, mas, após a sua morte, no ano de 1666, decidiu dar uma vira volta na sua vida, partindo para Edo, a fim de se tornar um poeta do haikai.
      No início, ele morou no bairro de Shinbashi, no centro da cidade de Edo, mas, em 1680, mudou-se para o bairro de Fukagawa, morando numa casa simples, à qual deu o nome de bashô-an (cabana de bananeiras japonesas). De seu bashô-an, ele saiu em viagem para várias partes do Japão, compondo poemas durante o caminho e fazendo muitos discípulos, que deram seguimento ao haikai de alto teor literário criado por Bashô.
      Durante uma das suas inúmeras viagens, Bashô ficou doente e faleceu na cidade de Osaka, em 1694, deixando o poema “Tabi ni yande, Yume wa kareno o kakemeguru” (No leito da enfermidade, os sonhos correm soltos pelo campo seco).

      Ningyô Jôruri – Teatro de bonecos
      Jôruri, à semelhança das trovas e dos cânticos da era medieval europeia, são composições cantadas com o acompanhamento de shamisen, instrumento musical de três cordas. Sua origem remonta à Era Muromachi (1336 ou 1338?~1573). Por volta da Era Edo (1603~1867), o Jôruri passou a ser apresentado juntamente com bonecos, encenando as histórias cantadas, daí o nome de ningyô (boneco) Jôruri.
      O Ningyô Jôruri atingiu grande popularidade apenas na Era Edo, com o surgimento de dois grandes génios: Takemoto Gitayû, cantor e compositor de Jôruri, e Chikamatsu Monzaemon, escritor dos dramas de Jôruri. Juntamente com o teatro Kabuki, o Jôruri constituiu-se numa arte encenada muito popular da Era Edo, muitas vezes superando o Kabuki, com os dramas cantados com mestria.
      Na Era Meiji, quando o Ningyô Jôruri começava a perder popularidade, Uemura Bunrakuken fundou o teatro Bunraku-za, em 1872, reconquistando o público. Com a popularidade dos Ningyô Jôruri apresentados no teatro Bunraku-za, o nome do teatro, ou seja, o Bunraku, passou a ser sinônimo de Ningyô Jôruri.

      Chikamatsu Monzaemon (1653~1724)
      Filho de samurai, Monzaemon sempre demonstrou maior afinidade pela literatura do que pelas artes marciais. Desde 20 e poucos anos, começou a escrever peças para Jôruri e também para Kabuki.
      A sua obra representativa é Sonezaki shinjû (Pacto de morte em Sonezaki), escrita em 1703, tendo como tema o duplo suicídio da meretriz Ohatsu e do jovem aprendiz de uma casa comercial ocorrido na cidade de Osaka, no bosque de Sonezaki-tenjin. A criatividade de Chikamatsu, que escolheu como personagens principais as pessoas do povo, e não figuras históricas famosas, e a sua abordagem lírica, mostrando o sofrimento do casal que não teve outra escolha a não ser a morte para imortalizar o amor, mobilizam um grande público para assistir ao espectáculo.
      Monzaemon é conhecido como o Shakespeare (1564~1616) do Japão.

      Teatro Kabuki
      O Kabuki, uma das artes encenadas japonesas mais conhecidas no mundo, teve origem no início da Era Edo, como segmento da dança denominada Kabuki Odori, criada por Izumo-no-Okuni (séculos XVI e XVII), em Kyoto. A dança criada por essa mulher foi imitada por muitas meretrizes, até ser proibida, em 1629, por atentar contra os bons costumes da época. Com essa proibição, o Wakashu Kabuki, dança de jovens bem apessoados, que surgiu por volta de 1615 tomou fôlego, mas também foi proibido em 1652, por fomentar o homossexualismo.
      No ano seguinte, porém, o shogunato de Edo acabou cedendo, com a permissão do Yarô Kabuki, ou seja, a representação em cena somente de actores do sexo masculino sem franjas, característica essa para identificar os jovens que não atingiram a idade adulta.
      Com o passar do tempo, o Kabuki foi se aprimorando, transformando-se numa arte teatral peculiar, cuja encenação não perdeu o refinamento estético das danças.
      Mantendo a tradição, até hoje o Kabuki é apresentado apenas pelos actores do sexo masculino. Os actores que fazem papel de mulher são conhecidos como oyama.



      Os revolucionários e a queda do shogunato Tokugawa.
      Ao perceber as falhas de seu governo, Tokugawa devolveu o poder à corte imperial.

      Por volta de 1850, os EUA e os países da Europa que tinham passado pelo processo da Revolução Industrial viam nos países da Ásia uma oportunidade de expandir seu mercado. Assim, tentaram forçar a abertura dos portos em um momento que coincidiu com o deteriorar do poder do shogunato Tokugawa, que vinha perdurando por mais de 260 anos. Pressionado pelos imperialistas, que aspiravam um novo sistema liderado pelo imperador, o shogunato também enfrentava os camponeses insatisfeitos, que provocavam motins em várias regiões, desencadeando uma onda de revoltas por todo o país.
      No início, o motivo da indignação foi o preço do arroz, mas o movimento foi crescendo e, no fim, o povo desejava a renovação do arquipélago. Muitos jovens que souberam da situação do país vizinho, a China, totalmente dominado por europeus e americanos, protestaram para que o Japão não tomasse o mesmo rumo. Em sua maioria, eram jovens oriundos da classe baixa dos samurais, filhos de camponeses e comerciantes. Os primeiros passos para a construção de um novo país foram dados por esses jovens, que, inclusive, impediram a colonização do país pelas nações do Ocidente.

      Sakamoto Ryôma (1835~1867)
      Nascido em Tosa (actual província de Kôchi), Sakamoto era o segundo filho de um samurai “reformado” (gôshi) que vivia no campo. Durante a infância, não foi um aluno muito aplicado, mas, ao presenciar a falta de disciplina do shogunato Tokugawa diante da chegada da esquadra americana comandada pelo almirante Perry, Sakamoto passou a dedicar-se profundamente aos estudos, pensando no futuro do país.
      Em 1862, Sakamoto desertou do feudo de Tosa e tornou-se discípulo de Katsu Kaishu (1823~1899), um homem de grande visão, e dedicou-se à fundação do quartel da Marinha. Com o apoio do feudo de Satsuma (actual província de Kagoshima), ele organizou o regimento da Marinha (kaihei-tai) e também dedicou-se ao transporte marítimo.
      Graças aos esforços de Sakamoto, os feudos de Satsuma e de Chôshu tornaram-se aliados na luta para derrubar o shogunato Tokugawa. Ele ainda elaborou o seu ideal de novo governo, conhecido pelo nome de senchu hassaku, que era:
      1) a devolução do poder ao imperador;
      2) o governo da corte imperial ouvindo a maioria e instalando um parlamento;
      3) a admissão em larga escala de pessoas capacitadas;
      4) a condução da política externa ouvindo a maioria;
      5) a criação de uma constituição;
      6) a ampliação do poder da marinha;
      7) a formação de uma força armada do governo;
      8) o estabelecimento de um câmbio com a moeda estrangeira.
      Sakamoto mostrou o senchu hassaku a Gotô Shôjirô (1838~1897), do feudo de Kôchi, que, por sua vez, convenceu Yamauchi Toyoshige (1827~1872), do mesmo feudo, a levar as premissas do novo governo ao conhecimento do décimo quinto e último shogum, Tokugawa Yoshinobu. Ao perceber a falha de sua administração, Tokugawa assinou o tratado que devolvia o poder à corte imperial.
      Sakamoto Ryôma sofreu vários atentados e foi assassinado aos 33 anos, durante um encontro sigiloso com Nakaoka Shintarô, outro revolucionário, dez meses antes da Restauração Meiji.

      Shinsengumi
      O povo japonês sempre demonstrou mais simpatia pelos perdedores. Um desses exemplos, símbolo de grande simpatia, é o Shinsengumi, um grupo de jovens que dedicaram fidelidade ao shogunato Tokugawa até o último momento. Embora todas as dramatizações sobre a história do Shinsengumi no teatro, no cinema e em telenovelas conquistem grande audiência, mesmo nos tempos actuais, sua trajectória não consta nos livros didácticos de história do Japão.
      Inicialmente formado por Kiyokawa Hachirô (1830~1863), o grupo chamava-se Rôshigumi e tinha como objectivo controlar os samurais desocupados que viviam na cidade de Edo (actual Tóquio), em fins de 1862. Porém, quando o grupo de jovens chegou a Kyoto para os preparativos da viagem do shogum a esta cidade, Kiyokawa declarou que o verdadeiro objectivo do grupo era apoiar os imperialistas. O shogunato ordenou a volta do grupo para Edo, mas alguns de seus membros eram contrários à conduta de Kiyokawa e permaneceram em Kyoto, formando, assim, o Shinsengumi, liderado por Kondô Isami (1834~1868), filho de camponeses.
      O grupo, então, passou a pertencer ao feudo de Aizu, com a intermediação do governador de Kyoto, Matsudaira Katamori (1835~1893), e consolidou-se pela postura anti-imperialista dos seus apoiantes. Em nome da paz, o Shinsengumi assassinou muitas pessoas em kyoto e dedicou fidelidade a Matsudaira Katamori, que foi contra a devolução do poder à corte imperial.
      Em 1864, o grupo conseguiu vencer a tropa do feudo de Chôshu, mas foi derrotado na batalha de Toba e Fushimi, em 1868. Os sobreviventes foram presos e decapitados. A batalha ainda se alastrou por um ano e meio entre os partidários do shogunato Tokugawa e o novo governo, conhecido como boshin sensô.
      Após a Restauração Meiji, Matsudaira Katamori tornou-se sacerdote-mor do Templo Nikko Toshogu, jazigo de Tokugawa Ieyasu. O último shogun, Tokugawa Yoshinobu, retirou-se para Mito (província de Ibaraki), após deixar o castelo de Edo, recebendo, posteriormente, o título de duque.
      Muitos dos jovens imperialistas que foram contemplados com algum título após a Restauração Meiji eram de origem humilde, em sua maioria dos feudos de Satsuma, Chôshu e Tosa.

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