
Era Azuchi-Momoyama
O início da unificação japonesa.
Oda Nobunaga e Toyotomi Hideyoshi lideraram processo de unificação com medidas de controlo a camponeses e terras.
A partir de meados do século XVI, após o fim da Revolta de Onin, os principais senhores feudais, ou seja, os daimiôs, tentaram ampliar os seus poderes travando guerras sangrentas. Dentre esses daimiôs, destaca-se a figura de Oda Nobunaga.
Nobunaga derrotou os daimiôs das redondezas e, chegando a kyoto, aniquilou o shogunato de Muromachi, em 1573. Em seguida, ele construiu um magnífico castelo em Azuchi (província de Shiga), próximo de Kyoto, e iniciou a obra de unificação do país, destruindo um a um seus inimigos. Entretanto, antes de concluir essa tarefa, Nobunaga foi traído por seu vassalo Akechi Mitsuhide e morreu no Templo Honnô-ji, em Kyoto.
Quando a morte de Nobunaga foi comunicada a seu fiel vassalo Hashiba Hideyoshi (posteriormente Toyotomi Hideyoshi), com um golpe de mestre ele derrotou o traidor Mitsuhide, tornando-se o herdeiro da obra de unificação do país.
Hideyoshi, então, construiu um gigantesco castelo em Osaka, o Osaka-jô, e, em 1590, alcançou a tão sonhada unificação do país, derrotando o clã Hôjô. Ele não deu início a um novo shogunato, mas tornou-se um kanpaku (plenipotenciário) para governar o país.
O período de, aproximadamente, 30 anos nos quais esses dois grandes estrategistas unificaram o Japão é conhecido como Era Azuchi-Momoyama, cujos nomes foram tirados dos castelos construídos respectivamente por Oda Nobunaga e Toytomi Hideyoshi (Momoyama-jô, situado no bairro de Fushimi, em Kyoto).
Oda Nobunaga (1534~1582)
Nobunaga era um dos 19 filhos de Oda Nobuhide, senhor feudal de quatro aldeias de Owari (província de Nagóia). Aos 16 anos, casou-se com a filha de Saitô Dôsan, senhor feudal de Mino (actual província de Gifu), numa aliança de conveniência promovida pelo seu pai para evitar os conflitos em terras fronteiriças dos dois feudos. Mais tarde, o seu sogro, Saitô Dôsan, foi assassinado por seu próprio filho, Tatsuoki. Como represália, Nobunaga expulsou Tatsuoki do castelo.
Com a destruição do shogunato Muromachi e a instalação no castelo de Azuchi, Nobunaga tomou uma série de medidas:
• Aboliu o sistema de sekisho (posto de fiscalização das estradas), permitindo livre acesso de trânsito.
• Tentou desenvolver a indústria e o comércio, isentando de impostos dos que mantinham actividades nas circunvizinhanças do castelo.
• Protegeu o cristianismo.
• Introduziu a arma de fogo nas suas batalhas, combatendo com furor os seus inimigos.
• Acabou com a soberania da cidade comercial de Sakai.
• Incendiou o Templo Enryaku-ji, porque os seus monges desobedeceram às suas ordens.
• Combateu as rebeliões da região norte e nordeste.
• Destruiu o poderoso clã Takeda, de Kai (actual província de Yamanashi).
Traição de Akechi Mitsuhide (1528~1582)
Existem algumas versões sobre o motivo pelo qual Mitsuhide traiu o seu senhor. Uma delas é a de que ele delatou o ataque que Nobunaga planejava a Takeda Katsuyori e, com medo de ser descoberto, atacou-o antes que fosse morto.
Outra versão conta que Mitsuhide teria sido envergonhado na presença de muitos por Nobunaga, que o teria repreendido duramente por uma falha na recepção a Tokugawa Ieyasu, facto que teria motivado Mitsuhide a voltar-se contra o seu senhor.
Entretanto, Mitsuhide deve ter sido motivado à traição pela imprudência do próprio Nobunaga, que se teria alojado no Templo Honnô-ji com pouquíssimo séquito, quando os seus vassalos fiéis estavam em terras distantes, combatendo forças revoltosas. Vendo uma óptima oportunidade para se tornar o novo governante do país, Mitsuhide terá atacado Nobunaga com a tropa recrutada para combater o clã Môri, da região de Chûgoku, a mando de seu senhor. Conseguindo encurralar Nobunaga, Mitsuhide terá incendiado o templo e levando-o ao suicídio.
Há também os que dizem que a crença de Nobunaga de que a doutrina budista seria nociva para a modernização do país teria motivado a alma dos monges por ele assassinados a incorporar em Mitsuhide, levando-o a cometer um acto tão demente.
Toyotomi Hideyoshi (1537~1598)
Pouco se sabe sobre sua verdadeira origem e suspeita-se de que muitos dos episódios contados na literatura a seu respeito sejam falsos. Muitos podem ter sido criados pelo próprio Hideyoshi, cujo pai foi um simples soldado de Oda Nobuhide, mas tornou-se camponês ao voltar ferido à sua terra natal.
Hideyoshi tornou-se empregado de Nobunaga, começando como guarda-calçados (zôri tori). Com sua astúcia e simpatia inata, foi conquistando a confiança de seu senhor, participando em várias batalhas e passando a comandar as tropas, vencendo muitos confrontos até chegar a ser senhor de um castelo, aos 37 anos.
Hideyoshi foi informado da morte de Nobunaga na distante região de Chûgoku, onde estava em guerra contra o clã Môri. Usando toda a sua astúcia, fez um acordo de paz com o clã e voltou o mais depressa que pôde com sua tropa. Depois de derrubar Mitsuhide, Hideyoshi tornou-se sucessor de Nobunaga na tarefa de unificação do Japão.
Para controlar melhor os camponeses e suas terras, Hideyoshi estabeleceu um padrão de medidas, unificando inclusive o tamanho da caixinha de madeira para medir o arroz (masu). Mandou medir todos os arrozais, verificar a qualidade do solo, registrar todas as informações e redistribuiu as terras, cobrando tributos conforme sua capacidade de produção (koku-daka).
Com a medida de uma terra para um lavrador, no sistema de shôen (latifúndio), em que havia muitos “sócios” dividindo os lucros das colheitas, os poucos latifúndios que ainda sobreviviam desapareceram, ficando os camponeses sob o controle de um senhor feudal. Esta medida ficou conhecida como taikô kenchi.
Hideyoshi ainda realizou o katana-gari, ou seja, confiscou e proibiu o porte de armas pelos camponeses e monges. Não satisfeito em controlar apenas o Japão, Hideyoshi tentou derrubar a dinastia Ming, da China, e por duas vezes enviou tropas para a Coreia, que ficava no meio do caminho para a China. No entanto, o povo coreano resistiu bravamente a esta invasão e deixou as tropas enviadas por Hideyoshi em desvantagem cada vez maior. Somando a isso ao falecimento de Hideyoshi, em 1598, os soldados japoneses retiraram-se da Coreia. Esse envio de tropas para o exterior desfalcou o cofre do país e constituiu-se em um dos motivos que levou à queda de Toyotomi.
Nanban Bôeki
Comércio com europeus, florescimento de novas culturas e construção de castelos suntuosos marcaram a época.
Na época de Nobunaga e Hideyoshi, floresceram as culturas mais ousadas e luxuosas, criadas por influência das mentes guerreiras dos samurais – classe reinante da época – e também pela cultura ocidental introduzida no país por meio do comércio com portugueses, espanhóis e italianos, o chamado nanban bôeki, ou seja, comércio exterior com os bárbaros do sul, direcção em que vinham os navios mercantes. O termo refere-se também ao comércio realizado pelos navios japoneses com os países das ilhas do sul, como Luzon (uma das ilhas das Filipinas), Java (na Indonésia), entre outras. Durante essa era da história japonesa, o comércio foi mantido, principalmente, com os portugueses.
Os europeus traziam ao Japão produtos como sedas chinesas, armas de fogo, pólvora, couro, especiarias e produtos de vidro, e compravam ouro, cobre, enxofre e principalmente prata, que passou a ser extraída em maior volume nesse período. O hábito de fumar também se difundiu e, no início do século XVII, o pé de tabaco passou a ser cultivado no Japão.
Os costumes dos nativos da Europa dessa época podem ser observados em figuras desenhadas nos biombos chamados de nanban byôbu. Há desenhos de caravelas, treino de cavalos, aves, outros animais e diversos objectos comercializados no período.
Momoyama bunka (Cultura Momoyama)
As diversas manifestações culturais dessa era são conhecidas como Momoyama bunka. Trata-se de uma época em que a paz foi restabelecida, o comércio se intensificou e os novos daimiôs ascendentes e os comerciantes que enriqueceram gastaram a sua fortuna para ostentar o seu poder ou a sua riqueza. Foram construídos por diversos daimiôs muitos castelos com belos e imponentes tenshukaku, ou seja, torres que serviam de mirante.
Tanto Oda Nobunaga (1534~1582) quanto Toyotomi Hideyoshi (1537~1598) construíram gigantescos e luxuosos castelos. Nobunaga construiu o Castelo Azuchi-jô, perto do Lago Biwa, na província de Shiga, entre 1576 e 1579; entretanto, a edificação foi destruída pelo fogo em 1582, durante a Revolta de Akechi Mitsuhide.
Hideyoshi, por sua vez, iniciou a construção do Castelo Ôsaka-jô, em 1583, e levou três anos para concluí-lo. Também esse castelo foi destruído em 1615 pelo fogo, durante a guerra que provocaria o suicídio de Toyotomi Hideyori, herdeiro e filho único de Hideyoshi, e da sua concubina, Yodogimi (sobrinha de Nobunaga). Hideyoshi ainda construiu em Kyoto o Castelo Jurakudai (1587), que foi destruído posteriormente (1595), e o Castelo Fushimi-jô, também conhecido pelo nome de Momoyama-jô, em 1594, onde o guerreiro viveu os seus últimos anos de vida. Com a morte do pai, Hideyori mudou-se para o castelo de Osaka, ficando o castelo de Fushimi sob a guarda de Tokugawa Ieyasu.
Todos esses castelos eram sumptuosos e enfeitados com ouro em todos os seus detalhes, com divisórias (fusuma) e biombos pintados com colorido refulgente. Das obras pintadas, destacam-se as de Kanô Eitoku (1543~1590) e Kanô Sanraku (1559~1635), da escola Kanô, que desenvolveu a arte em estilo Momoyama, combinando a técnica de suiboku-ga (sumiê) e de pintura tradicional japonesa (yamato-e). Uma das obras mais representativas de Kanô Eitoku é o biombo Kara-jishi byôbu, com a pintura de dois leões.
O Castelo de Himeji, na cidade com o mesmo nome localizada na província de Hyogo, serviu como residência de Hideyoshi na época em que ele ainda se chamava Hashiba Hideyoshi. O Castelo de Himeji – cuja construção foi iniciada no século XIV e finalizada no século XVII – foi reformado e ampliado pelo senhor feudal da Era Edo Ikeda Terumasa, ficando pronto em 1609. A construção de Himeji, também conhecida como Shirasagi-jô, sobreviveu aos bombardeios da Segunda Guerra Mundial e, actualmente, é um dos castelos marcados como património nacional.
Cha-no-yu e Sen-no-Rikyu (1522~1591)
Enquanto muitos samurais e nobres ostentavam o luxo, Sen-no-Rikyu transformou o cha-no-yu (cerimónia do chá), praticado até então com os objectos requintados importados da China, em apreciação do chá dentro de ambiente de refinada simplicidade, utilizando apetrechos comuns feitos no país. O chá, que antes era preparado numa sala à parte e servido à visita numa outra sala, passou a ser preparado diante do visitante. Foi criado todo um cerimonial para apreciação do chá num ambiente simples, mas de extremo bom gosto.
Sen-no-Rikyu foi o fundador da arte da cerimónia do chá da escola Senke e nasceu na cidade portuária de Sakai, em 1522. Seu antepassado foi Sen-ami, que serviu ao shogum Yoshimasa, oitavo da linhagem do clã Ashikaga. “Ami” era um título concedido aos sacerdotes com vasto conhecimento de diversas artes. Sen-ami mudou-se para a cidade de Sakai durante a Revolta de Onin.
Rikyu nasceu numa família de comerciantes abastados e desde cedo se interessou pela cerimónia do chá. Fez amizade com Imai Sôkyu (1520~1593) e Tsuda Sôtatsu (1504~1566), dois grandes mestres do chá e também grandes comerciantes.
Aos 49 anos, ele foi apresentado a Oda Nobunaga por Imai Sôkyu e a partir daí começou a sua ascensão social. Com grande sabedoria, ele conquistou importância cada vez maior para seu senhor, Nobunaga, e transformou a cerimónia do chá num evento imprescindível em muitos acontecimentos sociais, elevando, consequentemente, o status de seus mestres. Após a morte de Nobunaga, Rikyu passou a servir a Hideyoshi, conquistando também a sua simpatia.
Nessa época, mesmo no campo de batalha, eram realizadas as cerimónias do chá. Assim, Sen-no-Rikyu acompanhou Hideyoshi em suas guerras contra Shimazu, em Kyushu, e no ataque ao castelo de Odawara, aproveitando para trocar conhecimentos com os comerciantes influentes da região e divulgar a cerimónia do chá.
Após unificar e dominar o Japão, para fazer saber o seu poder, Hideyoshi realizou um grande cha-kai, reunião para apreciar o chá, em 1587, comandado por Sen-no-Rikyu, com apoio de outros dois grandes mestres do chá, Imai Sôkyu e Tsuda Sôgyu, filho de Sôtatsu. Foram montados cerca de 800 lugares para realizar a cerimónia do chá no pátio do Templo Tenman-gu, contribuindo muito para aumentar o número de apreciadores dessa arte.
Rikyu tornou-se um homem muito influente. Tanto é que o senhor feudal cristão de Kyushu Ôtomo Sôrin escreveu numa das suas cartas: “os assuntos particulares de Hideyoshi devem ser tratados com Rikyu; e os oficiais, com Hidenaga, irmão mais novo de Hideyoshi”.
Apesar de ter se tornado um homem de confiança de Hideyoshi, Rikyu atraiu sua ira em 1590 e foi levado a praticar o seppuku (suicídio) no ano seguinte.
Batalha de Sekigahara
Aliados de Toyotomi tentaram deter a ascensão de Tokugawa, mas não obtiveram êxito; mais tarde, ele daria início ao shogunato de Edo
Preocupado com seu filho Hideyori (1593~1615), antes de morrer, Toyotomi Hideyoshi (1536~1598) instituiu o gotairô, um conselho superior formado pelos cinco senhores feudais mais poderosos (tairô): Tokugawa Ieyasu, Maeda Toshiie, Môri Terumoto, Ukita Hideie e Kobayakawa Takakage (tio de Môri Terumoto e enteado do grande guerreiro Uesugi Kenshin), que depois da morte de seu padrasto recebeu o nome de Uesugi Kagekatsu. O gotairô tinha como principal função fiscalizar os trabalhos do gobugyô, uma espécie de conselho executivo formado por cinco bugyô (cargo público abaixo do tairô), tais como Ishida Mitsunari, Asano Nagamasa, Maeda Gen’i, Mashita Nagamori e Natsuka Masaie.
Dentre os conselheiros do gotairô, talvez o mais fiel à família Toyotomi tenha sido Maeda Toshiie (1538~1599), homem de confiança de Hideyoshi e seu amigo de longa data. Após a morte de Hideyoshi, em 1598, Maeda tentou manter a paz auxiliando Hideyori no castelo de Osaka, mas adoeceu e faleceu um ano após a morte do amigo.
Tokugawa Ieyasu (1542~1616), filho primogénito do senhor feudal do castelo de Mikawa (actual província de Aichi), não possuía a frieza e a audácia de Oda Nobunaga, nem a esperteza e a argúcia de Toyotomi Hideyoshi, mas era um homem paciente e oportunista. Após a morte de Hideyoshi, ele aumentou seu poder de influência, conseguindo fazer com que muitos senhores feudais passassem a apoiá-lo.
Preocupado com o poder de Ieyasu, o ferrenho defensor de Toytomi Hideyori, Ishida Mitsunari (1560~1600) tentou detê-lo, mas não conseguiu a adesão de muitos guerreiros para a causa. Protegido de Hideyoshi, Ishida era mais burocrata do que guerreiro, seguindo sua carreira valendo-se basicamente de sua inteligência, e não de grandes feitos em batalhas. Além disso, sempre pairaram suspeitas acerca da paternidade de Hideyori, já que seu pai, Hideyoshi, não teve filhos com sua esposa Nene, nem com suas inúmeras concubinas. Entretanto, já em idade avançada, ele teve dois filhos com a bela e genial Yodogimi, sobrinha de Oda Nobunaga. Hideyori foi o seu segundo filho; o primeiro, Tsurumatsu, faleceu ainda pequeno.
Em Junho de 1600, Tokugawa Ieyasu entrou em conflito com Kobayakawa Takakage (Uesugi Kagekatsu), iniciando uma batalha com o suposto intuito de provocar Ishida Mitsunari e levá-lo a confronto. Em Julho, quando as tropas de Ieyasu avançaram até Shimotsuke-no-kuni (província de Tochigi), Mitsunari decidiu combater as forças de Ieyasu tendo a seu lado as tropas dos guerreiros e do senhor feudal cristão Konishi Yukinaga (1558~1600) e o monge Ankokuji Ekei (?~1600), ambos homens de confiança de Toyotomi Hideyoshi. A batalha adquiriu dimensões cada vez maiores, obrigando os senhores feudais a decidirem de que lado deveriam lutar: juntar-se às tropas lideradas por Ishida Mitsunari, que lutava em nome de Toyotomi Hideyori, ou apoiar Tokugawa Ieyasu, poderoso senhor feudal em ascensão.
Kuroda Nagamasa (1568~1623), Katô Kiyomasa (1562~1611) e Fukushima Masanori (1561~1624), grandes guerreiros acolhidos por Toyotomi Hideyoshi e de sua esposa Nene, lutaram ao lado de Tokugawa Ieyasu, em parte convencidos pela própria Nene, a quem consideravam como mãe. Ela, por sua vez, aliou-se a Ieyasu talvez motivada pelo ressentimento contra a mãe de Hideyori, Yodogimi, a quem seu esposo dedicou grande afecto nos últimos anos de vida; ou ainda é possível que os longos anos de convivência com o grande estrategista e guerreiro tenham cultivado em Nene a habilidade de reconhecer um vencedor.
O confronto final ocorreu na tarde do dia 15 de Setembro de 1600, em Sekigahara, actual província de Gifu, quando a tropa de Kobayakawa Hideaki (1582~1602), sobrinho de Nene, mudou de lado e atacou os soldados até então aliados. Confusas, as tropas comandadas por Mitsunari perderam o rumo e acabaram vencidas pelos inimigos, liderados por Tokugawa Ieyasu.
Ishida Mitsunari foi preso e decapitado juntamente com Konishi Yukinaga e Ankokuji Ekei em Rokujô-gawara, Kyoto.
Osaka – Fuyu-no-jin, Natsu-no-jin
Em 1603, Tokugawa Ieyasu, vencedor da batalha de Sekigahara, foi agraciado com o título de generalíssimo (seii-taishôgun), dando início ao shogunato de Edo, actual Tóquio. A única ameaça, entretanto, era Toyotomi Hideyori e sua mãe, Yodogimi, que foram poupados por consideração a Toyotomi Hideyoshi, com o argumento de que a batalha tinha sido ideia de Ishida. Mãe e filho, mais a esposa prometida a Hideyori, Sen-hime, neta de Tokugawa Ieyasu e filha do segundo shogun, Tokugawa Hidetada, viviam no castelo de Osaka, cercado duplamente pelos fossos e muralhas de rochas.
Em Novembro de 1614, Ieyasu decidiu destruir a família Toyotomi e ordenou aos senhores feudais aliados de todo Japão o ataque ao castelo de Osaka, começando a batalha denominada Osaka, Fuyu-no-jin, ou seja, a batalha de Inverno em Osaka. Porém, os aliados da família Toyotomi, como Sanada Yukimura (1567~1615) defenderam bravamente o castelo. Por fim, eles concordaram em terminar a guerra, com a condição de fechar o fosso externo do castelo. No entanto, Ieyasu mandou fechar o fosso interno também.
Como se isso não bastasse, no ano seguinte, ele exigiu que Hideyori saísse do castelo, provocando um novo confronto, a chamado Osaka, Natsu-no-jin, ou seja, a batalha de Verão em Osaka. Sem a protecção dos fossos, as forças aliadas de Hideyori tiveram de sair do castelo e enfrentar as tropas de Ieyasu, numericamente bem superiores e melhor preparadas. Então, no dia 8 de Maio de 1615, o castelo de Osaka ardeu em chamas, envolvendo Hideyori e a sua mãe, que optaram pelo suicídio, encerrando assim a batalha de Verão.
Ninjas e Tokugawa Ieyasu
Os espiões dos tempos antigos, chamados de ninjas ou shinobi-no-mono, surgiram provavelmente no fim da Era Muromachi, quando se iniciaram as guerras entre diversos clãs. Todavia, pouco se sabe sobre os ninjas, já que todo espião que se preze vive e morre no anonimato. Porém, é sabido que Ieyasu fazia uso dos ninjas, tanto os do grupo Iga como de Kôga.
O relacionamento de Ieyasu com o grupo Iga começou quando ele foi salvo pelos samurais de Iga, em 1582, quando voltava às pressas da cidade de Sakai para sua terra, Okazaki, após saber do atentado de Akechi Mitsuhide contra seu senhor, Oda Nobunaga. Assim, ao se instalar em Edo, Ieyasu empregou-os, juntamente com os ninjas do grupo Kôga, para espionar os senhores feudais, ou seja, os daimiôs, para poder controlá-los.
As mulheres que viveram na era das guerras
Algumas mulheres viveram seguindo sua própria vontade, sobrepuseram-se ao seu destino e fizeram a diferença na história.
Com o objectivo de ajudar os seus maridos, as suas famílias, ou mesmo trabalhando em prol de suas próprias ambições, muitas mulheres agiram nos bastidores do cenário sangrento das intensas guerras, época na qual apenas os mais fortes sobreviviam. Aqui, serão destacadas algumas das mulheres que viveram seguindo a própria vontade, não se subjugando ao destino, mas sobrepondo-se a ele.
A posição social da mulher está intrinsecamente ligada ao tipo de casamento e aos direitos aos bens da família. Nos tempos em que os noivos iam visitar a casa das noivas para manter relações matrimoniais, as mulheres também tinham direitos aos bens da família. Mas os conflitos militares e a instabilidade social passaram a envolver as famílias ligadas por laços de casamento, mudando a forma do matrimónio. O casamento tornou-se um importante meio de arrebanhar aliados. A mulher começou a morar na casa do marido, pois seria uma forma de mantê-la como refém, garantindo a aliança militar.
Oichi-no-kata (1547~1583)
Filha de Oda Nobuhide e irmã de Oda Nobunaga, Oichi nasceu como uma das 6 filhas e 11 filhos de Nobuhide. Oda, um pequeno clã da actual província de Aichi, dominou a região valendo-se do poder de Saitô Dôsan, sogro de Nobunaga.
Oichi-no-kata, uma bela mulher de traços delicados, casou-se aos 20 anos com Asai Nagamasa, senhor do castelo de Otani, actual província de Shiga. Tratava-se de um casamento de conveniência, em que se esperava dela a manutenção de informações sobre todos os actos do seu marido. Em 1570, Oichi avisou o irmão Nobunaga sobre a traição do seu marido. Em vez de mandar uma carta a respeito de tal acto traiçoeiro, ela enviou um saquinho de feijão azuki com duas pontas amarradas. Ao recebê-lo, Nobunaga logo decifrou o alerta de que seria cercado e atacado em duas frentes. Antes que isso acontecesse, ele atacou o cunhado e destruiu-o. Oichi-no-kata e as suas três filhas foram salvas e passaram a viver com Nobunaga.
Em 1582, com a morte de Nobunaga, Oichi-no-kata casou-se com Shibata Katsuie, vassalo da família Oda. Em 1583, Katsuie foi derrotado por Toyotomi Hideyoshi. As três filhas foram salvas, mas Oichi optou pelo suicídio junto com o marido, no castelo de Kita-no-shô, actual província de Fukui.
Yodogimi (1567~1615)
Filha primogénita de Oichi-no-kata, Yodogimi perdeu o pai, Asai Nagamasa, aos 4 anos e passou a viver na casa da família Oda. Aos 14 anos, ela perdeu a mãe e o padrasto, quando Toyotomi Hideyoshi atacou Shibata Katsuie. Ela e suas duas irmãs menores foram novamente salvas e começaram a viver sob a protecção de Hideyoshi. As suas irmãs casaram-se antes dela, respectivamente com Tokugawa Hidetada (1579~1632), segundo shogun da Era Edo, e Kyôgoku Takatsugi (1563~1609), senhor feudal, antigo aliado de seu pai, Asai Nagamasa.
As três filhas de Oichi-no-kata herdaram a beleza da mãe, especialmente Yodogimi, dona de uma beleza vivaz e ímpar, foco da atenção de Hideyoshi, que acabou fazendo dela a sua concubina predilecta. Na época, ela contava com 20 anos e Hideyoshi 53 anos. O primeiro filho do casal morreu doente com 1 ano de idade, mas, em 1593, ela presenteou o poderoso senhor Hideyoshi com outro filho, Hideyori.
Hideyoshi dedicou todo o seu amor a esse filho único, mas faleceu quando Hideyori tinha apenas 6 anos de idade, pedindo aos seus principais vassalos para cuidarem e protegerem o seu filho amado. Entretanto, Tokugawa Ieyasu não cumpriu a palavra dada a Hideyoshi, atacando Hideyori e derrotando-o na batalha de Sekigahara, provocando a morte de Yodogimi e de seu filho na Batalha de Verão de Osaka.
Yodogimi podia ter escolhido a rendição e talvez viver modestamente com seu filho em algum feudo distante, mas ela preferiu a morte a viver sob a protecção do homem que havia usurpado o poder que deveria pertencer ao seu filho. Ela, que passou por várias vicissitudes da vida, sabia que Hideyori, uma ameaça constante ao clã Tokugawa, jamais seria poupado.
Kita-no-mandokoro (1541~1624)
Kita-no-mandokoro, esposa de Toyotomi Hideyoshi, nasceu como filha de um humilde samurai que servia o clã Oda. Casou-se com Hideyoshi em Agosto de 1561, época em que ele não passava de um humilde servo de Oda Nobunaga, chamava-se Kinoshita Tôkichirô; e ela, Nene. Ela sempre esteve presente na vida do marido, apesar de ele ter tido diversas concubinas. Após a morte do esposo, Kita aliou-se a Tokugawa Ieyasu, fundador do shogunato Tokugawa, que perdurou por 15 gerações, até 1867.
Quando Hideyoshi recebeu o título de plenipotenciário, ou seja, kanpaku, grau máximo da nobreza, ela, Nene, também recebeu o título máximo da nobreza, chamando-se Kita-no-mandokoro.
Após a morte de seu marido, ela tornou-se monja, seguindo o costume da época. Mais tarde, ela recebeu de Tokugawa Ieyasu um templo em Kyoto, o Kôdai-ji, onde viveu até os 83 anos.
Hosokawa Tamako – Garasha Fujin (1563~1600)
Filha de Akechi Mitsuhide, que levou à morte o seu senhor, Oda Nobunaga, Tamako era bela e também muito culta. Casou-se aos 16 anos com Hosokawa Tadaoki (1563~1645), também com 16 anos. O pai de Tadaoki, Hosokawa Yûsai (1534~1632) era um conhecido erudito versado na arte de compor poemas waka.
Após quatro anos de vida de casada, com um filho e uma filha, ela vivia dias felizes ao lado do seu dedicado marido, quando o seu pai se rebelou contra Oda Nogunaga e foi levado a cometer o seppuku ou harakiri, dez dias após a rebelião. Nessa ocasião, os principais vassalos da família Hosokawa aconselharam Tadaoki a separar-se da esposa, ou fazer com que ela praticasse o suicídio, a fim de proteger o clã da desgraça maior. Porém, Tadaoki não deu ouvidos aos seus súbditos e protegeu-a, fazendo com que ela vivesse em reclusão num local afastado, dentro do seu feudo, na península de Tango, Kyoto. Após dois anos de reclusão, com a interferência de Toyotomi Hideyoshi, ela deixou a erma península de Tango e foi viver em Osaka.
Tamako passou-se interessar pelo cristianismo, talvez por influência de sua serva, a cristã Maria Kiyohara. Logo após a proibição da prática do cristianismo, em 1587, Tamako tornou-se católica, recebendo o nome de batismo, Garasha (talvez do latim gratia).
Durante a batalha de Sekigahara, Ishida Mitsunari tentou obrigá-la a viver no castelo de Osaka como refém, mas ela recusou-se, suicidando-se. Logo depois disso, alguns servos fiéis a ela atearam fogo na casa e também se suicidaram. Essa sua atitude extremada intimidou Mitsunari e levantou o moral da tropa de Tokugawa.
Dizem que há algumas citações sobre a família Akechi na carta do padre português Luis Frois, conservada em Roma.





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